Sobre a Metafísica


“(...) mas ganhamos certamente um vislumbre importante e talvez mesmo essencial do que há de próprio à metafísica: o vislumbre de que nós mesmos nos esquivamos dela, nos evadimos furtivamente e nos entregamos a desvios; de que, porém, não resta outra alternativa senão nos abrirmos e olharmos a metafísica de frente, para que ela não se perca uma vez mais de nossos olhos”.

Heidegger

quinta-feira, 15 de março de 2012

O fim da leitura?

Há um texto de Jorge Luis Borges, um de seus contos fantásticos, intitulado “Utopia de um homem que está cansado”, que julgo bastante apropriado para ilustrar algumas das engrenagens profundas que influenciam a nossa relação com a leitura. O conto relata o encontro inadvertido de um ancião com um homem que vive no além do futuro antevisto. Algumas das passagens do conto assombram pelo modo como profetizam o fim da leitura, naquele que é o sentido que pretendo abordar aqui.

A passagem do conto de Borges que vale o resgate diz respeito à interpretação que aquele homem do futuro efetua acerca do destino da leitura, especialmente aquela que se nutre do espírito niilista do nosso tempo (sobre isso, devo preparar em breve um artigo que se ocupará da interpretação do niilismo brasileiro). A personagem borgiana “relembra” um passado no qual “Tudo se lia para o esquecimento, porque em outras horas o apagariam outras trivialidades”.

Pensemos o mundo atual, essa dinâmica de relações superficiais com os objetos do mundo, incluindo-se ainda o outro, esse outro quetambém é tido como objeto. Usualmente, nós nos relacionamos temporariamente com os objetos. Cada circunstância relacional cumpre apenas o papel de nos distrair. Até que se prove o contrário, tudo é descartável. Que importa guardar, cuidar, manter? Que importa qualquer fato ou história quando a qualquer momento podemos acessar o Goodle ou a Wikipedia para saber mais a seu respeito? Os fatos, as pessoas, os objetos do mundo agora só possuem valia se podemos usá-lo de algum modo para os fins que nos interessam. Parece que, enfim, como dizia Schopenhauer, todas as ordenações que fazemos são de modo que o traço trágico e sem sentido da vida não seja sentido: “A vida comum é distração”.

Como isso afeta a nossa relação com a leitura? Ora, nós precisamos de uma distinção clara aqui. Nós desde sempre compreendemos leitura como interpretação. No entanto, a interpretação pode acontecer em diferentes níveis. Eu gosto de pensar nesses níveis categorizando-os no campo da semântica e da pragmática (no sentido linguístico). Interpretar um texto à luz da semânticasignifica ser capaz de compreender a relação dos sinais (palavras) com as coisas. Isso promove um nível de relacionamento fundamental com a leitura, na medida em que se pode captar o texto, ou seja, ser capaz de compreendê-lo enquanto tal, e até mesmo reproduzí-lo. Nesse caso, o objeto da leitura é apenas o texto em si. Já no caso da pragmática – que trata do uso da linguagem, tendo em conta a relação entre os interlocutores e a influência do contexto –, a leitura acontece paraalém do texto. Esse modo de leitura leva em conta o leitor, o escritor, a época em que o texto foi escrito, a época em que o texto é lido, o arranjo dos sinais promovidos pelo escritor, o conhecimento prévio do leitor diante das construções lógico-semânticas do texto, o valor semântico dos sinais etc. Nessa perspectiva, não somente podemos reproduzi-lo como podemos recriá-lo. Assimilar um texto, assim, é ser capaz de reinventá-lo continuamente. Admito, porém: ler desse modo parece exigir demais de uma sociedade que está ávida por se distrair.

Quando falo do fim da leitura, refiro-me à indisposição de nossa geração de leitores e escritores para praticar interpretações no nível pragmático (sempre no seu viés linguístico). Essa indisposição nos remete à mera leitura semântica. É raro que alguém, nos dias de hoje, se demore sobre um texto. Isso é uma pena, pois como a personagem de Borges nos ensina: “Não importa ler, senão reler”. É no hábito da releitura de um texto bem escrito que acontece a produção de sentido. A transformação que um texto pode promover no modo de percepção do mundo só acontece quando alguém lhe dedica tempo. E dedicar tempo não significa esperar encontrar construções semânticas já conhecidas. É preciso reconstruí-las, repensá-las em suas dimensões associativas e conectivas. Para tanto, não se deveria revigorar o apreço pelo trivial. Seria preciso rejeitá-lo.
Lamentavelmente, a sociedade do Século XXI parece-me indiferente a tudo isso. Observo essa tentativa desenfreada de alcançar a comunicação integral e imediata com o outro como uma gradual destruição da capacidade criativa de escritores e leitores. Há essa crença recalcitrante de que, para alcançar os jovens leitores, é preciso se aproximar da linguagem deles. Contudo, creio que há mais aí do que uma tentativa de salvação da leitura. Acho que a mediocridade estimula a mediocridade, pois como diz o Prof. e filósofo alemão Vittorio Hösle, “A mediocridade tem medo de tudo aquilo que é melhor do que ela”.

A minha pauta para o problema da leitura, enquanto editor, escritor e filósofo, movimenta-se na recuperação de algo que estamos perdendo: o compromisso com a obra. Em meus artigos recorro insistentemente a esse tema por se tratar de um caminho que não pretende ser alternativo, mas concomitante e necessário. Eu não acredito em valor sem esforço. Essa tendência mórbida de se compor e oferecer textos fáceis de serem absorvidos é perniciosa. Os textos devem exigir esforço de todas as partes envolvidas. E há uma razão para crer nisso: a beleza habita na sutileza, mas ela só nos abre as portas quando descobrimos, nas entranhas do texto, a composição que inclui o leitor, o escritor, os sinais e a história. Somente ali, onde a leitura alcança a perspectiva pragmática, ocorre a produção de novos sentidos e, consequentemente, a liberdade.

sábado, 10 de março de 2012

A cultura e a tirania do consumo

O grande poeta grego Ésquilo, em sua magnífica tragédia intitulada Prometeu, promoveu, através das palavras desse titã, a leitura de nossa condição humana desde o início de nossa história até o momento em que descobrimos a força da razão e do pensamento.

Em certo momento, Prometeu fala: “Antigamente, os homens tinham olhos para não ver, eram surdos à voz das coisas, e (...) agitavam ao acaso a duração da sua existência na desordem do mundo”.  E mais adiante, acrescenta: “Faziam tudo sem nada conhecerAté o momento em que [dei] a eles a ciência do levantar e do pôr dos astros [o tempo]. Depois veio a dos números, [ciência] de todo o conhecimento. E as letras que se juntam, memória do universo, obreira do labor humano, mãe das artes”.

Observando o que se instaura em nossa cultura, especialmente a cultura brasileira, o discurso de Prometeu mostra-se como recurso precioso para interpretarmos corretamente  o que ora acontece em nosso tempo. Mas precisamos vê-lo invertido.

Prometeu nos recorda dessa luta que a humanidade travou para sair das trevas rumo a luz das possibilidades que o conhecimento proporciona. Sutilmente, ele sugere  que nosso domínio sobre a natureza se dá através das noções de tempo, de medidas e das possibilidades do sentido dadas pela linguagem.

Imaginemos agora, de modo invertido, uma caminhada que se inicia no ponto máximo do domínio dessas três noções. Imaginemos a noção do tempo relativizada, em um viés subjetivo, que serve apenas aos nossos propósitos, que se desocupa do tempo que precede a nossa particular existência e se despreocupa do tempo que virá após a nossa morte, ou seja, o passado e o futuro onde “eu” não estou incluído. Imaginemos ainda a noção de medida encurtada apenas para aquilo de que trata a vida prática, o nosso agir inadvertido no mundo. E finalmente, imaginemos a noção das possibilidades da linguagem apenas como recurso para o “ter”. Para onde essa caminhada nos levaria?

Pois talvez o que observamos como manifestação cultural em nossos dias seja consequência desse percurso. Explico. Há, mesmo entre a suposta “elite” cultural, uma predisposição para fomentar a mensagem de “parem de exigências, sejam menos seletivos e consumam mais”. Essa predisposição se dá pelo abandono (necessário?) das tentativas de “elevar” ou “enobrecer” os consumidores culturais. Como diz Zigmunt Bauman, professor emérito da Universidade de Varsóvia: “A cultura hoje é constituída de ofertas (...) Esta é uma sociedade de consumidores, e, tal como o resto do mundo, vemos e experimentamos o mundo como consumidores”.

Em uma sociedade em que todo o produto corre o risco de ser descartado ou ignorado se não encontrar o seu consumidor, a regra é fazer tudo o mais simples possível, prometendo facilidades. O celular substituiu o telefone fixo porque tornou mais fácil se comunicar a qualquer momento. A cafeteira com cartuchos de café está conquistando espaço porque simplifica o modo como se faz café. E a comida pronta então? Nem é mais preciso saber cozinhar.

Na sociedade de consumo, o comportamento predominante – o nosso comportamento – não foge à regra. Assim, o próprio professor na sala de aula, por exemplo, se esforça em tornar fácil a sua lida. Ele age de modo a não ser rejeitado. Ele sugere leituras fáceis, para que os alunos não descartem a leitura. Ele oferece exercícios fáceis. Dá menos dever de casa. Ele oferece a facilidade para que o aluno avance em seu currículo escolar. Ele está ali para agradar pais e filhos.   O ensino transformou-se em um consumível.

 Os escritores, por sua vez, não fogem a regra. Para garantir que sejam consumíveis eles se engajaram na produção de texto fáceis, com linguagem aproximada do seu público leitor, para evitar ser rejeitado.
Não precisamos ir tão longe nessa explicação. Voltemos à Prometeu e a inversão da caminhada. Como é possível promover profundidade e reflexão em uma sociedade de consumo que ignora a história? Como é possível falar de algo que não esteja centrado no “eu”? Como é possível promover o uso da linguagem para a apreensão do sentido do “ser” quando tudo o que se quer é o “ter”.

O que me parece ruidoso em todo esse momento cultural é essa incontornável superficialização da cultura, uma circunstância que vive o agora e ignora o passado e o futuro, que ignora o raciocínio lógico porque aspira não sofrer, que encurta a linguagem para não ter o trabalho de interpretar. Que mundo estamos construindo? 
Eu costumava pensar em arte como uma trilha para a libertação crítica, como se o artista pudesse ser aquela personagem do Mito da Caverna platônico e nos conduzir para a luz. Eu costumava pensar em arte como algo perene, como um ponto de exclamação eterno, que não podia ser explicada como “eu tenho, você não tem”. Precisamos admitir: estamos diante de um “fenômeno”. Não no sentido de algo maravilhoso ou espetacular, mas como um grande descuido. Esse fenômeno se manifesta na ditadura midiática, no comportamento predominante nas escolas (seja aluno ou professor), nas conversas do cafezinho, nas mídias sociais e (pasmemos!) na produção literária.

Se déssemos voz à Prometeu novamente, diante dessa nova miséria para a qual o homem se encaminha, a miséria das facilidades, a miséria dessa danação cultural, talvez ele falasse sobre outra tirania, uma tirania mais dura e amputadora – a tirania do consumo –, e suas palavras seriam: “Agora, os homens tem olhos para não ver, são surdos à voz das coisas, e (...) agitam ao acaso a duração da sua existência na desordem do mundo”.




sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pelo dia 25 de Dezembro

Não importam os credos, as disposições para aceitar ritos de passagem ou mesmo para encarar datas referenciais como marcos de um feito ou conquista. Sejamos céticos ou crentes, o dia 25 de dezembro nos aproxima de um evento.

Curiosamente, esse evento refere (ainda que o consenso falte entre os historiadores) um nascimento. O que há de especial em um nascimento?

Mesmo que se decida adotar uma posição indiferente, um nascimento sempre nos toma de alguma maneira. Seja um filho, um parente distante ou mesmo o rebento de um amigo, sentimos uma inclinação para fazer uma reverência. Manter a vida, fazê-la surgir, nutrí-la e cuidá-la nos exige. E cientes dessa exigência, ainda que inadvertidamente, admiramos o evento da vida.

O nascimento é a materialização da possibilidade da vida, daquilo que ela pode proporcionar, da promessa que nela habita.

Dia 25 de dezembro nós estaremos, de uma maneira ou de outra, diante de um rito de passagem que nos fala das possibilidades, daquilo que se movimenta no horizonte de nossa continuidade. Agrada-nos falar de possibilidades, pois, quando delas falamos, fazemos referência também à nossa história. O que trazemos na bagagem, até aqui, é a história que nos concede a possibilidade disso ou daquilo.

Pois na bagagem desse ano, trazemos essa convivência, esse nosso convívio. Algo que já é parte da história de cada um. Conquistas e derrotas, alegrias e frustrações. Tudo aquilo que nos exigiu movimento, que nos exigiu a vida. Mirar o próximo ano desde essa experiência conjunta oferece-nos possibilidades além de nossa imaginação. E isso é bom. Ficamos satisfeitos com isso.

Eu, particularmente, acho que esse evento, essa circunstância, é uma igreja. Um lugar onde se está autorizado a ir com orgulho e respeito. Esse lugar é a nossa casa, as nossas famílias. Ali é onde podemos reinaugurar as nossas disposições, fazê-las nascer de novo, entre os abraços e os carinhos de gente que nos admira e que sabe que os admiramos.

O meu desejo para vocês – leitores, parceiros e admiradores da 8INVERSO -, nesse dia 25 de dezembro, é que tenham a coragem de nascer. Que tenham a disposição para usar a bagagem que cada um possui em favor da inauguração de novas possibilidades. O meu desejo é que vocês festejem a vida, que a tenham nos olhos, dando a si próprios à luz. Nasçam de novo e uma vez mais, diante dos seus e diante de si mesmos. Pela vida. Façam essa reverência a si próprios, como se cada um de vocês fosse um Jesus, um salvador.