Mal me esqueço: os primeiros passos, de arrasto pela hesitação, diante do absurdo daquela exigência vertical sem teu apoio. Queria tentar. Era preciso. O desafio de vencer aquela distância entre o sofá e tuas mãos. Caminhei para ti de riso trêmulo, um aluno se exibindo ao mestre. Nem tive qualquer firmeza no andar, mas alcancei, orgulhoso por descobrir que também eu podia algo que fazias com tanta facilidade. Caminhar é essencial para quem pretende ir em frente.
Então, de mente simples, fui. Em frente que é o que sempre espera. Sem outra escolha, por aperfeiçoar aqueles passos, pelos quatro cantos daquela infância que até me sobrava. Experimentei, sem rumo. Quis acompanhar o teu passo mais largo, mais seguro, mais. Admirava. Como tinhas consciência dos teus destinos! Se pudesse eu imitar, mas tudo por buscar ainda.
A adolescência trouxe os espinhos, o que afasta, a vontade de desafiar. Desafiei. A ti, pois de mim nem lembrava. Lembras? Andar mais rápido, diferente, não importava destino ou caminho, mais que tu, menos de ti. Andei em bandos, andei sozinho, andei meio perdido – andei sonhando. Disfarcei os insucessos, continuei na admiração de tua marcha firme, horizontal. Lá, longe de ti, imitava, pois adolescer é fingir ser adulto.
Hoje, por aí, caminhante enfim, decidido, beligerante, adulto mesmo, vou e volto. O tempo é professor lento, eficiente no nem tanto. Agora posso acompanhar sem dificuldades teu ritmo maduro, experiente. Teus passos já não parecem tão largos; porém, ainda mais firmes que os meus. Não mais te desafio. Ao teu lado, sempre serei aluno. Guardo comigo essa admiração inabalável. Muito eu tento e meu caminhar não alcança o teu. Nem sei como consegues. Em verdade, caminhas como sempre. Tu caminhas como meu pai.
Nenhum comentário:
Postar um comentário